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A Deus de casa
Ela caminhou pela rua como sempre fez, olhou as casas que viu se transformarem com o tempo.
Recordou-se das vozes e dos movimentos que os dias tornaram tão familiares. Algumas delas foram levadas pelo tempo, outras deixaram de ser agudas e já tomaram o mundo.
Ao abrir o portão, percebeu que ele ainda faz o mesmo som esganiçado, que foi aumentando ao longo dos anos. Alguns cachorros foram porteiros fiéis e cumpriram o seu dever no seu pouco tempo de vida neste planeta.
A casa se transformou durante os anos; cada planta e cada árvore têm um pouco de tempo dedicado a elas.
As paredes têm camadas de tinta, cada uma delas decidida por debates e composições, geralmente resolvidas pela mesma pessoa no final: sua mãe.
O quintal é um portal magnífico para um universo incrível, onde foram criados mundos diversos, a fantasia alimentada por músicas e histórias contadas antes de dormir.
Naquele quintal, conheceu tantos personagens e, junto com seus amigos, viveu diversas aventuras. Nenhuma delas se repetiu. Foi ali também onde era comemorado cada ano-novo de sua vida. Sua vida era celebrada com seus doces prediletos, e sua árvore genealógica se espalhava pelos cantos da casa: seus avós, tios e primos.
Quando entrou na sala, lembrou-se dos movimentos dos móveis que ocorreram durante os anos. Os sofás foram trocados com o tempo. Neles, momentos de jogos, de pulos, de sonos durante a tarde e da resistência contra eles para evitar ir para o quarto antes de acabar um filme.
Entrou no seu quarto, que foi de personagens infantis, passando pelos ídolos teen e, mais recentemente, repleto de livros. Sentou-se na cama e respirou.
O último olhar no lugar onde foi o seu lar gera uma mistura de sensações, pois cada canto de um lar foi produzido com algum tipo de energia e marcado por uma lembrança.
De certa forma, alguns dias que foram passados ali poderiam passar por cem anos, e mesmo assim pensaríamos que foi rápido demais.
O quarto é mais que um dormitório. É um confidente fiel de tantos momentos de euforia, tristeza, paixões platônicas, com romances intermináveis a cada noite.
O lugar onde as músicas se enroscavam com lembranças, num laço chamado nostalgia a cada nota ouvida no futuro.
Nesse momento, chove lá fora. Chuva de lavar a alma, chuva de tocar no rosto e resgatar noites frias, mas com um conforto quente. Uma lembrança em que seus pais sempre vão se preocupar se os filhos estão devidamente protegidos do tempo lá fora.
Mas agora o tempo construiu essa casa dentro dela. A partir de agora, mesmo que fisicamente ela mude para novas histórias, a casa vai existir com tudo e todos dentro dela.
Depois de longos momentos embrulhando a vida, os móveis herdados e a limpeza para que outros chamem aquele lugar de lar, chegou o momento de partir.
Ela caminha pela última vez por cada cômodo, pelo quintal, respira e faz uma oração de agradecimento que mais parece poesia.
Anda até o portão, ouve o barulho singular pela última vez e sorri.
Seu lar agora é eterno dentro de si e vai se tornar uma criação para, quem sabe, uma nova garota com tantos sonhos e ilusões.
Sentindo a sua falta no insta, Dan!!!
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